
Com suas máscaras misteriosas, roupas brilhantes e o som marcante dos chocalhos e relhos, os Caretas são a principal tradição do Carnaval de Triunfo, no Sertão pernambucano.
Na segunda-feira de Carnaval eles transformam as ruas da cidade em um espetáculo, no tradicional desfile dos caretas, um dos momentos mais aguardados da festa. O evento reúne mascarados de todas as idades e atrai turistas de várias regiões.
Inspirados em personagens do reisado, uma manifestação folclórica que acontece no ciclo natalino, os Caretas ganharam identidade própria em 1917, quando um dos integrantes do reisado foi expulso do grupo por estar embriagado. Após a expulsão, ele decidiu desfilar sozinho, pegou vários chocalhos, um chicote e saiu pelas ruas.
Os jovens da época acharam interessante a ideia e resolveram sair daquele personagem no carnaval. Antes de se tornar tradição, a figura dos caretas chegava até a causar medo nas pessoas.
“Hoje os caretas são a figura principal de Triunfo, mas por muito tempo as pessoas tinham medo dos caretas porque eram homens bêbados que saíam mascarados e brincavam carnaval”, conta Pândora Carvalho, participante do desfile dos Caretas.
Com o tempo as pessoas foram abraçando a manifestação cultural e agora o estalo dos relhos e o som dos sinos das tabuletas criam uma atmosfera que mistura susto e encantamento, marcando a memória de moradores e visitantes.
Durante todo o ano, figuras mascaradas circulam pela cidade, mas é nos dias de folia que a tradição ganha força, levando cor, brilho e animação às ladeiras históricas.
As roupas dos Caretas são confeccionadas com tecidos brilhantes, fitas e passamanarias. Já as máscaras, que antes eram feitas de couro, passaram a ser produzidas com papel machê, jornal e cola de goma.
Outros itens da indumentária também são marcantes na história da fantasia, o relho, por exemplo, é um chicote para estalar no ar, produzindo um som característico que assusta e diverte os foliões. Eles também usam uma tabuleta com chocalhos, que anuncia a chegada dos Caretas nas ruas.
Durante décadas, a brincadeira dos Caretas era exclusivamente masculina, mas algumas mulheres se arriscavam participando da tradição trajadas como homens, como foi o caso de Fátima Moura. Reconhecida como a primeira mulher a sair de Careta, Fátima precisou se vestir como homem para abrir o caminho da participação feminina na tradição.
Essa realidade começou a mudar entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Pândora Carvalho já desfila como Careta há 15 anos, segundo ela a mudança foi muito importante para a representatividade e para a continuidade da tradição.
“O que era antes uma manifestação predominantemente masculina, passou a ganhar novos significados. Hoje, nós não apenas ocupamos esse espaço, mas reafirmamos o papel da mulher como agente ativa na preservação e evolução da cultura triunfense.”
A presença feminina também trouxe novas características à estética dos trajes, como cores mais delicadas, flores nos chapéus, uso de saltos e roupas mais ajustadas.
“Hoje as mulheres não escondem que são mulheres. Elas colocam um colã, um decote mais arrojado, uma legging mais apertada, um pouco mais de brilho, tons mais femininos no chapéu”, explica Pândora.
Mais do que um personagem carnavalesco, o Careta representa a identidade de Triunfo. Entre o som dos chocalhos, o estalo dos relhos e o colorido das fantasias, a tradição atravessa gerações mantendo viva a cultura do município.
A cada carnaval, o desfile reafirma a preservação das suas raízes enquanto incorpora novas vozes, como a participação feminina. Assim, os Caretas seguem reinando nas ruas triunfenses, encantando turistas e moradores.
Por JC Online